segunda-feira, 24 de março de 2008

sexta-feira, 21 de março de 2008

Faixa 77 (tudo em um)



As árvores são fáceis de achar
Ficam plantadas no chão
Mamam do sol pelas folhas
E pela terra
Também bebem água
Cantam no vento
E recebem a chuva de galhos abertos

Há as que dão frutas
E as que dão frutos
As de copa larga
E as que habitam esquilos
As que chovem depois da chuva
As cabeludas, as mais jovens mudas

As árvores ficam paradas
Uma a uma enfileiradas
Na alameda
Crescem pra cima como as pessoas
Mas nunca se deitam
O céu aceitam
Crescem como as pessoas
Mas não são soltas nos passos

São maiores, mas
Ocupam menos espaço
Árvore da vida
Árvore querida
Perdão pelo coração
Que eu desenhei em você
Com o nome do meu amor.

Antunes, Arnaldo in As Árvores, São Paulo, Brasil

quarta-feira, 19 de março de 2008

Faixa 76 (diz que é uma espécie de blogue)

Porque carga de água alguém faz um blogue? A Carlota achou que valia a pena meter-me a pensar no assunto, erradamente, digo eu. Eu não tenho propriamente um blogue, tenho um álbum de recordações que vou preenchendo consoante o tempo que vou tendo disponível. A Carlota chama-lhe casa, eu chamo-lhe álbum, outros, porventura, não lhe chamarão nada. Mas pronto como tudo tem um começo, o meu depende de um outro, o outro começo levou-me a um jantar lá para os lados do Restelo. Foi intrigante perceber que as pessoas que, em parte, não se conheciam se apresentavam amavelmente mas com uma vertente muito curiosa no seu interesse pelo outro: Hélder? Hum? Hélder? Qual é o teu blogue? Eu sou o agente infiltrado, o espião de serviço, dizia-lhes. E era.
Eu, ser humano absolutamente do contra, recusava a ideia de deixar que um blogue me tirasse mais tempo do dia do que aquele que eu já perdia com os meus afazeres. O clique fatal foi dado por uma decisão que tomei e que mudou a minha vida: deixar de fumar. Deixei de facto, mas como em tudo na vida as verdadeiras mudanças dependem sobretudo de mudanças de hábitos, rapidamente percebi que teria de trocar o meu companheiro de viagem de 18 anos por algo que tivesse fácil acesso e que fosse um processo tão pessoal e intransmissível quanto o fumar um cigarro. Assim criei um blogue, e assim deixei de fumar. Ponto a favor, já posso ir a jantares de bloguers sem ter de me preocupar com aquele olhar de se não és o que é que estás aqui a fazer? O que eles não sabem é que continuo a ser agente infiltrado.

Para cúmulo deste strip-tease bloguistico ainda querem que eu confesse quais os hediondos blogues por onde ando e de que gosto.
Começo por um que me faz rir e recordar a cidade mais bonita que já conheci… o Avenida Copacabana e muitos outros blogues brasileiros têm sempre uma qualquer luzinha a mais que os nossos.
Por razões diversas, e todas demasiado importantes, A Curva na Estrada está no meu coração. Enquanto fã número três da escrita desta senhora digo que é uma pena que ninguém a publique em versão papel.
Gosto da boa disposição e ironia do 31 da Armada.
Gosto do Corta-Fitas, sobretudo pela simpatia e empatia criada em mim pelo amor felino descrito ali pela Teresa Ribeiro.
Gosto da alma e genialidade do José Bandeira.
Gosto de ler o arco-íris de palavras deixadas pela Pitucha No Cinzento de Bruxelas.
Gosto de muitos outros mas destes, especialmente, gosto umas duas ou três vezes por dia - às vezes mais.

Ah e tal mas afinal quando vens ao Lote 5 - 1º Dto vais à procura de quê? Basicamente de notícias de pessoas que conheço e gosto, e ali encontro-as sempre.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Faixa 75 (históricos XIII)

Ano de Colheita: 1990

quarta-feira, 12 de março de 2008

Faixa 74 (velocidades)

Um dístico redondo assinalando o número 40, quatro triângulos reflectores, três vermelhos, um quarto amarelo, um pirilampo cor-de-laranja do lado esquerdo, uma senhora pelos seus setenta anos no primeiro andar da viatura conduzida vagarosamente pelo, presumo, seu marido, acenando aos vizinhos e sorrindo enquanto passa, a roda traseira do lado direito torta. Ela repara em mim e acena-me. Eu sorrio e aceno de volta. Cinco minutos e cerca de 600 metros a 20 quilómetros hora, atrás de um tractor nas ruas estreitas da minha aldeia. Chego a casa e não consigo mais uma vez deixar de pensar que a velocidade a que vivemos no dia-a-dia cada vez mais nos impede de ver as pequenas coisas.

terça-feira, 11 de março de 2008

Faixa 73 (marvel's iron man)




A 2 de Maio faz-se a estreia mundial da mais recente adaptação cinematográfica do universo Marvel, Iron Man. A Banda Sonora Original também promete: AC/DC, Audioslave e, o obrigatório, Iron Man dos Black Sabbath.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Faixa 72 (apêndice da 71)

Faixa 71 (históricos XII)

Ano de Colheita: 1990

Faixa 70 (coisas de época V)

Vocês vão ser papadíssimos.

TVI, (07/03/2008), Morangos com Açúcar

A frase é dita em tom de desafio por uma jovem com olhar de matadoura de toiros que acabou de ser convidada por um rapazola para um confronto épico e sem quartel num jogo electrónico. Sintomático e educativo...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Faixa 69 (coisas de época IV)

Caminhámos juntos, perdidos nos nossos próprios pensamentos. Esqueço-me de onde estamos, ou de quando foi. Depois tu aproximaste-te, fizeste-me uma festa no cabelo e pegaste-me na mão; eu sei que me estavas a agarrar na mão e a falar comigo docemente. De súbito tive a sensação de que tudo estava como deveria e nada podia ser acrescentado a esta felicidade ou satisfação. Isto era tudo o que existia, e tudo o que poderia existir. O melhor de tudo tinha-se acumulado neste momento. Só podia ser amor.

Hanif Kureishi, Intimidade, 1998

quarta-feira, 5 de março de 2008

Faixa 68 (coisas de época III)

É evidente que nunca nos apresentámos. Embora, na verdade, nas escadas, na rua, nos encontrássemos muitas vezes, mas parecia que ela não reparava em mim. Nunca a via sem os óculos escuros, sempre bem arranjada, a simplicidade das suas roupas exibia um bom gosto discreto, os azuis e cinzentos e a falta de brilho, que faziam com que ela, por si, irradiasse toda a luz. Era possível confundi-la com um modelo fotográfico, talvez uma jovem actriz, mas era óbvio, a julgar pelas horas a que entrava em casa, que não tinha tempo para ser nenhuma das duas coisas.

Truman Capote, (1958), Breakfast at Tiffany’s


P.S. - Traduzir o título deste livro para Boneca de Luxo é atroz. Tão atroz como ter o vinil dos U2 - The Joshua Tree, que na sua primeira edição portuguesa, em 1987, veio traduzido na nossa língua mãe, e de onde se podem retirar as pérolas que são de resto grandes êxitos destes senhores: Contigo ou sem ti, Ainda estou à procura do que não encontrei , Onde as ruas não têm nome.

Faixa 68 (o Dramático)

E ao 11º disco veio a recordação do que o tempo se encarregou de ir apagando. O velho, e desaparecido, pavilhão do Dramático de Cascais foi durante anos uma luz para os rockeiros e metaleiros.
O Dramático estava para os amantes do estilo como Fátima está para os católicos, era um sítio de peregrinação obrigatória. O Portugal dos anos 80 e início de 90 não era um país com um menu particularmente diversificado no que tocava a concertos, e portanto os poucos que eram marcados, se de metal se tratasse iam sempre parar ao local.
Lembro-me perfeitamente de dois concertos que me marcaram, Iron Maiden (pela colecta que fizeram à porta de pulseiras de bicos, soqueiras e afins) e Manowar (são até hoje a banda mais barulhenta que já ouvi e na altura lutavam com os Twisted Sister pelo direito de constar no Guiness Book of Records como a Banda Mais Barulhenta do Mundo em Palco).
Pelo Dramático passou, nos anos 80, boa parte das visitas que os artistas faziam cá ao burgo: Lou Reed, Ramones, Clash, Tubes, Cheap Trick, Judas Priest, e os Nirvana que terão dado em 1994 um dos seus últimos concertos ali, já que Kurt Cobain se suicidou pouco depois.
Isto de um gajo não estar a ficar mais novo tem destas coisas. Hoje o acesso aos concertos, aos discos, à informação é tremendamente fácil, tão fácil que este flashback de cerca de 20 anos me parecia há cerca de meia hora a memória de um mundo que já não conheço.
Aqui vos deixo a único referência em vídeo que descobri de um concerto onde eu estava a algures no meio da multidão, a imagem e o som não são os melhores mas é incrível que alguém se tenha lembrado de filmar isto em 1986, há 22 anos atrás.

Faixa 67 (históricos XI)

Ano de Colheita: 1985

terça-feira, 4 de março de 2008

Faixa 66 (coisas de época II)

E afasta-se, sorrindo, enquanto o vento faz estremecer a sua écharpe clara e o reflexo da palha vermelha do chapéu lhe dá à pele crestada do rosto e do pescoço um tom luminoso e róseo de morango. Inclina-se, debruça-se sobre o parapeito da tolda para ver melhor. A aragem e o sol cingem-na numa onda de luz tão viva que seu vulto ligeiro, ondulando, quase confundindo-se com a cor das velas que sulcam o horizonte, dir-se-ia uma emanação da própria claridade matinal.

Augusto de Castro, As Mulheres e as Cidades, 1928

segunda-feira, 3 de março de 2008

Faixa 65 (históricos X)

Ano de Colheita: 1982

Faixa 64 (Coisas de época)

As mulheres portuguezas são muitas vezes formosas e algumas vezes completamente bellas. Teem cabellos abundantes, o olhar meigo, suave e penetrante; os dentes são incomparáveis. Os pés são um pouco grandes, mas as mãos são encantadoras. Bem postas nas pernas, de talhe elegante, posto que um pouco nutridas, a cor da pelle pouco brilhante, ar ousado, a cabeça posta elegantemente, trazendo com um desembaraço mais modesto do que pretencioso a curta saia e o chapéo airoso.

Louis Figuier, As Raças Humanas, 1873